Quatro jokers à procura de trunfo

Biotecnologias, Ecotecnologias, TIC e Logística

Renascimento. É um conceito que se poderia aplicar bem à estrutura da economia luxemburguesa, onde existe um raro consenso não apenas sobre a necessidade da diversificação para voltar a crescer, mas inclusive mais além – também sobre a importância de apoiar essa diversificação com dinheiros públicos. “É preciso ir beber o crescimento onde ele está”, afirmou Etienne Schneider, o ministro da Economia, resumindo numa frase a estratégia presente do país. 

A teoria está claramente delineada; as áreas em que é desejável investir, também. E a vontade em atrair cadeias de valor de “nicho”, por remotas ou temporárias que estas sejam, está demonstrada no novo impulso dado aos embaixadores económicos do país em mercados-chave pelo mundo (EUA, China, Dubai – mas ainda não mercados de elevado potencial como Brasil nem Angola, talvez pelo preconceito cego em relação à língua portuguesa) ou na forte ambição personificada no Luxinnovation, um organismo que reúne diferentes interesses públicos unidos na preocupação do crescimento.

Claro que o desafio é de enorme complexidade. Como a revista Economist tão bem glosou numa sua famosa capa, em que uma plantinha anémica era acompanhada pelo título “Cresce, raios, cresce!”, o crescimento económico não se obtém por decreto nem desejo. E para dificultar as coisas, a chave do caminho escolhido reside na capacidade de atração e fixação dos altos níveis de conhecimento que estão associados a uma mão-de-obra altamente qualificada – que não existe no país. A prosperidade futura está assim muito dependente da educação, e a avaliação só pode ser feita no longo prazo. Há uma aqui uma contradição algo arriscada – tal como o futebol, a economia é o momento. E tal como no futebol, numa metáfora que tem sido aliás muito utilizada por figuras ligadas ao governo luxemburguês, é necessário atrair os melhores profissionais de todo o mundo através de condições materiais irrecusáveis que ultrapassem a desvantagem de (pelo menos numa primeira fase) quem se mudar para o Grão-Ducado ir jogar numa espécie de "segunda divisão" das indústrias de ponta.

Biotecnologias

As hipóteses de sucesso da diversificação económica são completamente indissociáveis do destino da Universidade do Luxemburgo e em nenhuma das áreas propostas isso é tão verdade como na vertente das biotecnologias, onde a formação extensiva e especializada é uma condição essencial para a criação de um cluster de atividades e a criação de talentos no país. Sem isso, restaria ao Luxemburgo continuar indefinidamente a atrair talento estrangeiro para suprir as necessidades internas das indústrias de tecnologia, como hoje acontece. E se essa importação de cérebros pode significar boas notícias para, por exemplo, jovens licenciados portugueses, implica também que o setor nunca viria a ter um grande impacto ao nível do emprego interno.

Foram lançadas algumas primeiras bases para a criação de um pólo especializado em biotecnologias. A criação do LCSB (Luxembourg Centre for Systems Biomedicine) em Belval, dirigido por um professor universitário de renome (Rudi Balling), já atraiu a primeira empresa do setor, dedicada à investigação em proteínas que podem vir a combater as doenças neurodegenerativas, isto após a criação logo em 2008 da IBBL, orientada para a medicina personalizada; e um enorme fundo de apoio de 150 milhões de euros (120 do Estado, 30 de origem europeia) está a ponto de ser constituído…

Ecotecnologias

Tal como as biotecnologias, também as ecotecnologias – um termo genérico que procura englobar a ecoinovação, investigação em tecnologias do ambiente, indústrias de desenvolvimento sustentável – beneficiarão da construção (em curso) da “House of BioHealth” (algo como “Casa da BioSaúde”), um edifício futurista em Esch-sur-Alzette que reunirá em 10000 m2 de laboratórios e 8000 m2 de escritórios uma sucessão de empresas conceituadas ou startup neste domínio. O pontapé de saída para o foco nas ecotecnologias foi dado ainda em 2009, quando o Ministério da Economia identificou o mercado global crescente para este tipo de produtos e encorajou os atores a aumentar o número de projetos-piloto e de projetos em I&D – a princípio com um relativamente tímido fundo de 5 milhões de euros e uma promessa de divulgação das competências do país nesta matéria, mas logo em seguida com a abertura de um centro dedicado à experimentação comum entre investigadores públicos e empresas, a atualização da legislação do país em matéria de requerimentos ambientais, e - sobretudo - com a criação do ambicioso cluster “Luxembourg EcoInovação”, uma rede de apoio financeiro, logístico e de conhecimentos que liga os diferentes intervenientes desta fileira de criação de valor. Mais uma vez, a necessidade de capital humano com formação especializada, e logo a importância do desenvolvimento da universidade em Belval (para onde esta se mudará em 2015) é evidente.

TIC

Primeiro as más notícias: a mudança no regime do IVA sobre o comércio eletrónico, que passará a fazer reverter o valor do imposto para onde a venda é efetivamente feita e já não para o Estado que alberga a sede da companhia vendedora, não provoca apenas um buraco de 700 milhões de euros no orçamento de Estado para 2015: faz também perigar a presença no Luxemburgo de gigantes das Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT, na sigla inglesa). A Amazon estabeleceu aqui a sua sede europeia em 2004, a iTunes também, a eBay em 2006, logo seguida pela PayPal, enquanto a Skype já aqui laborava desde o seu início… mas a partir do próximo ano, será preciso convencer estas apetecíveis empresas a não fazer as malas em buscas de prados mais verdejantes, e não é o recentemente anunciado aumento da taxa do IVA que o vai fazer. Mas o Luxemburgo tem na manga alguns trunfos em matéria de atratividade para as empresas de ICT, já que para além das vantagens fiscais e legais, há um centro de competências já bem desenvolvido e uma consciência em relação à importância do setor que fica bem patente nas diversas iniciativas públicas de promoção, como “Luxembourg for ICT” em 2010. E claro, o nicho específico dos centros de dados começa a ganhar relevância: às 19 infraestruturas deste tipo já existentes juntar-se-á no final de 2015 um enorme data center para a LuxConnect. Finalmente, a articulação com os outros setores faz-se de forma natural – por exemplo pela grande necessidade de dados pessoais seguros que exigem as biotecnologias, ou os novos sistemas de informação requeridos pelas indústrias dos transportes e da logística…

Logística

Logística essa que constitui uma área de natureza um pouco diferente das restantes apostas em termos de diversificação económica, desde logo porque já existe um capital de experiência acumulado nesta fileira de atividades e alguns casos de sucesso para demonstrar, sobretudo no frete aéreo – apesar do seu affaire falhado com os capitais do Qatar, a Cargolux é uma referência incontornável do negócio. Adicionalmente, e ao contrário das outras três, a logística é uma atividade menos intensiva em conhecimento e poderá absorver uma parte dos trabalhadores menos qualificados, atenuando um pouco as enormes diferenças entre as competências existentes no Grão-Ducado e as suas necessidades futuras em matéria de know-how. A intenção dos poderes públicos é a de promover o país como grande plataforma intercontinental e local privilegiado para gerir as longas cadeias de fornecimento de produtos, aproveitando vantagens competitivas como a posição geográfica, a diversidade linguística e o quadro fiscal relativamente favorável, bem como a criação de zonas intermodais exclusivamente dedicadas à logística de alto valor acrescentado (como a da gestão de bens de luxo, por exemplo). O país dispõe de uma formação de nível secundário em gestão de logística desde 2006, e cerca de 20 000 trabalhadores no setor. Claro que as intenções não chegam e também nesta área a concorrência de outros países com vantagens distintas em relação ao Luxemburgo se faz sentir intensamente…

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