Novo gabinete vai apoiar investidores da diáspora

Entrevista com José Cesário, secretário de Estado das Comunidades

Depois de "décadas de dependências que foram extremamente negativas", José Cesário mostra-se confiante na nova cultura de investimento que começa a despontar. "Estamos perante uma nova cultura de investimento", que implica a adaptação "da administração, das empresas e das universidades", entre outros organismos. O principal objetivo deste novo gabinete é promover essa adaptação. “Servir de facilitador”.

d. O governo anterior tinha anunciado em finais de 2008 um investimento de 2 milhões de euros para captar investimentos de empresários da diáspora. O que é feito desse programa?

Esse projeto nunca chegou a concretizar-se. Houve um excesso de recursos e de fundos que lhe foram destinados e depois chegou-se à conclusão que não existiam nem os recursos humanos nem as verbas previstas para avançar. Era demasiado caro para o retorno esperado.

d. Este gabinete é uma espécie de versão mais realista desse projeto?

Não estamos nem de longe nem de perto a falar do mesmo tipo de valores. Atualmente disponho de uma equipa de duas pessoas encarregues do projeto e que colaboram com outras estruturas que estão diretamente implicadas nesta área como é o caso da AIPC (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal)”.

d. Os objetivos também terão “emagrecido” proporcionalmente ao orçamento...

Não necessariamente. Optamos por uma aplicação mais prática dos recursos disponíveis. Algumas das ideias que estiveram na base do projeto preparado pelo anterior governo eram boas e foram recuperadas, mas com denominações diferentes e acima de tudo com uma aplicação mais rigorosa dos fundos e mais orientada para os resultados.

d. Como por exemplo?

A renegociação de um protocolo anual destinado a garantir o funcionamento do observatório da emigração que passou de 100 mil euros anuais para 15 mil é um bom exemplo dessa preocupação. São 85 mil euros que conseguimos transferir de uma atividade de análise para outras atividades de aplicação mais prática. Estava também prevista a organização de conferências destinadas aos empresários, acompanhadas de mecanismos de aconselhamento e apoio. É uma boa iniciativa que já começou a dar os primeiros passos este ano, mas com os recursos existentes, que como se sabe são escassos

d. Quem organiza e participa nesses encontros?

Os encontros são organizados pelo gabinete agora criado em colaboração com o AICEP e com as autarquias locais.

Em 2013 foram organizados dois eventos, um em Março, que teve lugar em Lisboa, centrado no ramo imobiliário e outro de caráter mais abrangente, em Maio.

Estamos a falar de cerca de uma centena de empresários sediados em Portugal e dúzia e meia de empreendedores oriundos da diáspora, que têm a oportunidade de se conhecer e trocar impressões sobre eventuais negócios e parcerias.

d. O objetivo principal é atrair investimento para Portugal ou promover a internacionalização das empresas portuguesas?

Os dois são importantes. Existem dezenas de milhares de empresários portugueses espalhados pelo mundo que poderiam estar interessados em investir em Portugal se tivessem a acesso à informação necessária e dispusessem de uma rede de contactos de confiança. O mesmo acontece com cada vez mais PMEs portuguesas que procuram aceder a novos mercados mas têm dificuldades em encontrar interlocutores e parceiros fiáveis. 

d. Trata-se portanto de apoiar as pequenas e médias empresas...

As grandes empresas possuem já uma rede de contactos e uma capacidade financeira que lhes permite contornar certos obstáculos que para as PMEs não conseguem.

Este gabinete destina-se a isso mesmo, facilitar as trocas comerciais e o networking entre as empresas de menor dimensão, inclusive das micro empresas, pois são essas as mais necessitadas e, ao mesmo tempo, as principais geradoras de emprego.

Depois há ainda a questão da quebra do consumo interno que obrigou as PMEs a procurar outros mercados..

d. Há preferência por algum sector da economia em concreto?

O nosso objetivo é promover as trocas comerciais independentemente do sector a que pertencem. Nos últimos anos temos visto surgirem muitos negócios que apesar da crise têm conseguido crescer e que não pertencem a nenhum dos sectores tradicionalmente fortes em Portugal

d. Em termos geográficos quais são os mercados mais apetecíveis?

Os de maior presença portuguesa, sobretudo em países do continente europeu e americano, embora também haja casos de comunidades de pequena dimensão mas com grande concentração de empreendedores e com grande influência. Singapura, com mais de 400 empresários portugueses, e a própria Malásia são bons exemplos disso.

d. Como é que vê a saída de talentos de Portugal, após o país ter investido tanto dinheiro na sua formação?

A sua saída pode traduzir-se numa perda de recursos para o tecido empresarial em Portugal. Mas é necessário também ter em conta que essas pessoas vão adquirir competências muito úteis no mercado global de que direta ou indiretamente Portugal poderá beneficiar.

d. Acredita que voltarão?

A maioria acredito que sim. Temos inúmeras provas de que os portugueses espalhado pela diáspora mantêm laços muito fortes com o seu país de origem. As remessas enviadas são uma demonstração desses laços

comments powered by Disqus

Artigos Recomendados

Próximo em Empresas